Dicas da Salu

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Trilha Inca, Peru

 

Na rota para Macchu Pichu, rios e ladeiras íngremes são alguns dos desafios para os turistas

Encarar uma trilha é a experiência mais intensa que alguém pode ter na Cordilheira dos Andes. A mais famosa delas, a Inca, leva à cidade de Machu Picchu, situada na transição das montanhas com a Amazônia. Mas o cardápio oferecido pelas agências de turismo em Cusco, a capital peruana do turismo por excelência, vai muito além deste que figura entre os mais cobiçados trekkings do mundo. Há um número razoável de percursos diferentes a serem considerados por quem gosta de caminhar e sabe apreciar a delicada brutalidade da natureza andina.

O Qhapaq Ñan, 'Caminho Real' em quéchua, é defendido por muitos historiadores como o maior legado deixado pelo povo que dominou os Andes e a costa do Pacífico na América do Sul antes da chegada dos espanhóis. Essa rede de estradas entrelaçadas ligava os territórios do Tahuantinsuyo, nome original do Império Inca, que significa “as quatro regiões”. Estudiosos estimam que os incas tenham empedrado cerca de 40 mil quilômetros de caminhos com o intuito de conectar paragens hoje ocupadas por Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina.

Naqueles idos tudo isso constituía uma única nação, e a maneira mais eficaz de controlar esse vasto território era tendo acesso a seus rincões mais remotos. Essa foi a principal razão pela qual os incas se dedicaram a construir e cuidar de seus caminhos. Além de permitir um controle estatal austero, essas rotas facilitavam o fluxo comercial entre as diferentes regiões, condição sem a qual o Império Inca jamais poderia ter se consolidado.

Hoje em dia a recuperação do Qhapaq Ñan tem sido vista como motor do desenvolvimento turístico para os países por ele interligados. De olho nesse potencial, os governos das nações anteriormente citadas firmaram um acordo multilateral de cooperação no sentido de resgatar o maior número possível de quilômetros e, a partir da integração com as comunidades locais, iniciar sua exploração comercial, com evidente foco no turismo.

Muito há de vir pela frente nos próximos anos. Ainda assim, no momento, algumas rotas pertencentes à extensa malha incaica já estão disponíveis para os viajantes. Para descobri-las basta colocar a mochila nas costas, contratar os serviços de acampamento e alimentação pertinentes, além de um bom guia, e pôr o pé na estrada.

Apesar de sua grandiosidade, o único trecho mundialmente famoso do Qhapaq Ñan é o caminho que desemboca em Machu Picchu, mais conhecido como Trilha Inca. Julho é o mês mais recomendado para encará-la, mas de longe também o mais concorrido. Trata-se da época seca, sem chuva, o que acaba por facilitar bastante a tarefa dos andarilhos. Apesar disso, faz frio durante a noite e é preciso estar atento também à baixíssima umidade relativa do ar. Não dá para descuidar da hidratação.

Guias experimentes recomendam também setembro e outubro para a Trilha Inca. São meses igualmente secos e, por enquanto, menos disputados pelos gringos. Essa época também favorece a observação da Via Láctea nas gélidas madrugadas andinas, especialmente na região de Chinchero, povoado a cerca de 35 quilômetros de Cusco e a quase 3.800 metros de altitude.

Antes de mais nada, porém, para ter sucesso na empreitada a palavra de ordem é planejamento. A lista de espera para ingressar na Trilha Inca chega a ultrapassar um ano. Já não é mais como antigamente, quando bastava chegar a Cusco e contratar o tour. Agora, tudo é controlado. A direção do Parque Arqueológico de Machupicchu estipula em 500 o número de caminhantes que podem acessar o percurso ao mesmo tempo, incluídos aí turistas, guias, carregadores e cozinheiros.

A propósito, a exemplo da Trilha Inca a entrada a Machu Picchu, restrita a 2,5 mil pessoas por dia, também deve ser reservada com antecedência pela internet (www.machupicchu.gob.pe), assim como a subida ao Huayna Picchu, a montanha que emoldura a cidadela de pedra. Nem pense, portanto, em sair de casa sem se programar. E cuidado com quem oferece indiscriminadamente o roteiro nos arredores da Plaza de Armas de Cusco. O governo peruano classifica essas pessoas de “inescrupulosas” – além de não terem permissão para fazê-lo, podem colocar os desavisados numa tremenda roubada.

 

Trilha Inca, Peru

É muito comum observar lhamas, sozinhas ou em grupos, ao longo da Trilha Inca. Crédito: Thinkstock

O trajeto clássico da Trilha Inca dura quatro dias e começa no km 82 (Piscacucho) da estrada de ferro que leva a Águas Calientes – a opção é iniciá-la no km 88 (Qorihuayrachina). Esse itinerário tem aproximadamente 45 quilômetros e passa por ruínas incas envoltas em espetaculares paisagens montanhosas. Já a rota curta, de dois dias, tem início no km 104 (Chachabamba) e também contempla achados arqueológicos, como a bela Wiñaywayna, cujo nome significa “sempre jovem”.

Para qualquer das opções, é preciso fôlego e muita disposição. Os dois primeiros dias da rota clássica são os mais puxados. O auge é vencer Warmihuañusca, a mais de 4.200 metros sobre o nível mar. A altitude estafa, mas é possível enfrentá-la com pastilhas medicinais vendidas nas farmácias ou, como fazem os nativos, com folhas de coca comercializadas nos mercados. O antídoto natural contra o soroche (mal de altitude) pode ser consumido em infusões ou mascado. Não há o que temer. Para esclarecer dúvidas, desfazer mitos e espantar fantasmas a esse respeito, visite o Museo de la Coca, no bairro de San Blás, em Cusco.

Na trilha, a média de esforço a cada dia fica em torno de seis a oito horas. As noites são dedicadas a descansar, ouvir as histórias dos guias, trocar experiências com outros viajantes e observar as estrelas. O restante é pura conexão de corpo e mente com as montanhas. Belas, imponentes e por vezes amedrontadoras, elas são as grandes coadjuvantes da aventura. A protagonista, não cabe dúvida, é Machu Picchu, a grande recompensa que enche de lágrimas os olhos de quem a avista pela primeira vez desde Intipunku (Porta do Sol) no amanhecer do último dia de caminhada.

Salcantay, a alternativa mais confortável

Salcantay remete ao nevado cultuado pelos incas na região de Machu Picchu. Na cidadela uma inscrição aponta na direção do monte, um Apu na cosmovisão andina. Aos Apus, ou espíritos sagrados e força vital das montanhas, eram dedicadas oferendas e rendidas homenagens. A trilha que empresta seu nome pode durar cinco dias, ou mais, a depender de suas intenções. Dentre todas, é a que oferece mais conforto e uma experiência sem igual. A empresa Mountain Lodges of Peru organiza roteiros com hospedagem em lodges ao longo do caminho, e todas as vantagens que isso acarreta.

Boa parte da caminhada é feita a quase 4 mil metros de altitude, o que requer fôlego e bom preparo físico. Isso não impede os sedentários de cumprir o trajeto, mas há que estar atento às articulações: é importante ter joelhos saudáveis. O incessante sobe e desce exige bastante da musculatura e dos meniscos. Passo a passo, escute seu corpo. E respeite-o. Uma das lições mais belas de um trekking como esse está justamente no autoconhecimento. Não dá pra perder essa chance.

Do alto de seus 6.270 metros, o Salcantay acompanha os viajantes durante a maior parte do percurso. Quem vai no esquema lodge to lodge tem confortos inimagináveis para quem encara a trilha acampando. Água quente e cama branca, limpa e cheirosa toda noite fazem a diferença em qualquer situação. Para uns e outros, no entanto, o caminho não leva diretamente a Machu Picchu, como seria de se supor – ou desejar. A chegada ocorre em Águas Calientes, ou Machupicchu Pueblo, a cidadezinha aos pés da velha montanha encimada pela enigmática cidadela. De lá, na alvorada do dia seguinte, os viajantes finalmente têm acesso a uma das novas maravilhas do mundo.

Apesar de bem menos concorrida que a Trilha Inca, também é recomendável fazer reserva para a Salcantay. “Nosso roteiro vende mais que pão quente”, diz Valerie Barton, travel specialist da Mountain Lodges of Peru. O preço final, a propósito, de US$ 3 mil por pessoa na alta temporada, equipara-se ao de outros roteiros exclusivos pelo mundo. Ainda assim, costuma lotar. A concorrência dos europeus, especialmente de alemães, nórdicos e holandeses, aumenta a cada ano.

 

Trilha Inca, Peru

Vistas deslumbrantes e subidas íngremes aguardam aqueles que desafiam os Andes Peruanos. Crédito: Thinkstock

Choquequirao e Vilcabamba, ainda mais desafios

Último bastião da resistência inca ante a invasão espanhola, Vilcabamba faz parte de um dos trekkings mais desafiadores da Cordilheira dos Andes. Limitada pelos profundos cânions do Apurímac e do Willcamayu, a cidade acolheu a linhagem real remanescente inca que impôs resistência durante anos aos ibéricos em meados do século 16.

Choquequirao, ou Berço de Ouro em quéchua, fica numa quebrada deslumbrante também protegida pelo rio Apurímac. Trata-se de uma clássica cidade inca, com setores sagrado, urbano e agrícola. Apenas 30% de sua área total se encontram escavados, mas uma parceria entre os governos do Peru e da França promete acelerar os trabalhos e, eles apostam, transformá-la numa nova Machu Picchu.

Conhecer de perto tanto Vilcabamba como Choquequirao exige tempo e ainda mais espírito de aventura do que, por exemplo, percorrer o Caminho de Salcantay ou mesmo a Trilha Inca. É possível fazê-lo em partes ou numa única tacada (de mestre, diga-se) em um roteiro de 13 a 15 dias que inclui também Machu Picchu.

Menos tempo, mas bem aproveitado

Se a ideia é travar contato com povoados isolados que preservam seu modo de vida ancestral, então não pense duas vezes em optar pelo trekking no Vale de Lares. Nele, os viajantes atravessam sítios arqueológicos incaicos e visitam vilarejos agrícolas, comunidades indígenas e famílias de tecelões durante os quatro dias de um trajeto que os leva para mais perto das nuvens, a 4.400 metros de altitude.

Mesmo quem dispõe de menos tempo também pode vivenciar a experiência de percorrer caminhos incaicos na região do Vale Sagrado, nas cercanias de Cusco. O roteiro que leva ao sítio arqueológico de Huchuy Qosqo tem a medida certa: os viajantes caminham de seis a oito horas para chegar às ruínas do palácio onde o soberano Viracocha se refugiou quando os chancas, arquirrivais dos incas, atacaram Cusco por volta de 1440. Coube a Cusi Yupanqui, um dos filhos de Viracocha, conter o ímpeto dos invasores. Após derrotar seus inimigos mais temidos, os incas puderam enfim iniciar o auge de sua expansão.

Cusi Yupanqui assumiu o poder, mudou seu nome para Pachacutec, o transformador do mundo, empreendeu várias campanhas exitosas e criou, de fato, um modelo estatal que viria a ser conhecido como Império incaico. Considerado o maior entre seus pares, Pachacutec também ordenou a construção de Machu Picchu, talvez a maior façanha arquitetônica de seu governo e destino final dos melhores trekkings na Cordilheira dos Andes.

 

Machu Picchu, Peru

A imagem clássica de quem chega ao fim da trilha inca. Crédito: Thinkstock

 

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Trilha Inca, Peru

 

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Na rota para Macchu Pichu, rios e ladeiras íngremes são alguns dos desafios para os turistas

 

Encarar uma trilha é a experiência mais intensa que alguém pode ter na Cordilheira dos Andes. A mais famosa delas, a Inca, leva à cidade de Machu Picchu, situada na transição das montanhas com a Amazônia. Mas o cardápio oferecido pelas agências de turismo em Cusco, a capital peruana do turismo por excelência, vai muito além deste que figura entre os mais cobiçados trekkings do mundo. Há um número razoável de percursos diferentes a serem considerados por quem gosta de caminhar e sabe apreciar a delicada brutalidade da natureza andina.

O Qhapaq Ñan, 'Caminho Real' em quéchua, é defendido por muitos historiadores como o maior legado deixado pelo povo que dominou os Andes e a costa do Pacífico na América do Sul antes da chegada dos espanhóis. Essa rede de estradas entrelaçadas ligava os territórios do Tahuantinsuyo, nome original do Império Inca, que significa “as quatro regiões”. Estudiosos estimam que os incas tenham empedrado cerca de 40 mil quilômetros de caminhos com o intuito de conectar paragens hoje ocupadas por Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina.

Naqueles idos tudo isso constituía uma única nação, e a maneira mais eficaz de controlar esse vasto território era tendo acesso a seus rincões mais remotos. Essa foi a principal razão pela qual os incas se dedicaram a construir e cuidar de seus caminhos. Além de permitir um controle estatal austero, essas rotas facilitavam o fluxo comercial entre as diferentes regiões, condição sem a qual o Império Inca jamais poderia ter se consolidado.

Hoje em dia a recuperação do Qhapaq Ñan tem sido vista como motor do desenvolvimento turístico para os países por ele interligados. De olho nesse potencial, os governos das nações anteriormente citadas firmaram um acordo multilateral de cooperação no sentido de resgatar o maior número possível de quilômetros e, a partir da integração com as comunidades locais, iniciar sua exploração comercial, com evidente foco no turismo.

Muito há de vir pela frente nos próximos anos. Ainda assim, no momento, algumas rotas pertencentes à extensa malha incaica já estão disponíveis para os viajantes. Para descobri-las basta colocar a mochila nas costas, contratar os serviços de acampamento e alimentação pertinentes, além de um bom guia, e pôr o pé na estrada.

Apesar de sua grandiosidade, o único trecho mundialmente famoso do Qhapaq Ñan é o caminho que desemboca em Machu Picchu, mais conhecido como Trilha Inca. Julho é o mês mais recomendado para encará-la, mas de longe também o mais concorrido. Trata-se da época seca, sem chuva, o que acaba por facilitar bastante a tarefa dos andarilhos. Apesar disso, faz frio durante a noite e é preciso estar atento também à baixíssima umidade relativa do ar. Não dá para descuidar da hidratação.

Guias experimentes recomendam também setembro e outubro para a Trilha Inca. São meses igualmente secos e, por enquanto, menos disputados pelos gringos. Essa época também favorece a observação da Via Láctea nas gélidas madrugadas andinas, especialmente na região de Chinchero, povoado a cerca de 35 quilômetros de Cusco e a quase 3.800 metros de altitude.

Antes de mais nada, porém, para ter sucesso na empreitada a palavra de ordem é planejamento. A lista de espera para ingressar na Trilha Inca chega a ultrapassar um ano. Já não é mais como antigamente, quando bastava chegar a Cusco e contratar o tour. Agora, tudo é controlado. A direção do Parque Arqueológico de Machupicchu estipula em 500 o número de caminhantes que podem acessar o percurso ao mesmo tempo, incluídos aí turistas, guias, carregadores e cozinheiros.

A propósito, a exemplo da Trilha Inca a entrada a Machu Picchu, restrita a 2,5 mil pessoas por dia, também deve ser reservada com antecedência pela internet (www.machupicchu.gob.pe), assim como a subida ao Huayna Picchu, a montanha que emoldura a cidadela de pedra. Nem pense, portanto, em sair de casa sem se programar. E cuidado com quem oferece indiscriminadamente o roteiro nos arredores da Plaza de Armas de Cusco. O governo peruano classifica essas pessoas de “inescrupulosas” – além de não terem permissão para fazê-lo, podem colocar os desavisados numa tremenda roubada.

 

Trilha Inca, Peru

 

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É muito comum observar lhamas, sozinhas ou em grupos, ao longo da Trilha Inca. Crédito: Thinkstock

O trajeto clássico da Trilha Inca dura quatro dias e começa no km 82 (Piscacucho) da estrada de ferro que leva a Águas Calientes – a opção é iniciá-la no km 88 (Qorihuayrachina). Esse itinerário tem aproximadamente 45 quilômetros e passa por ruínas incas envoltas em espetaculares paisagens montanhosas. Já a rota curta, de dois dias, tem início no km 104 (Chachabamba) e também contempla achados arqueológicos, como a bela Wiñaywayna, cujo nome significa “sempre jovem”.

Para qualquer das opções, é preciso fôlego e muita disposição. Os dois primeiros dias da rota clássica são os mais puxados. O auge é vencer Warmihuañusca, a mais de 4.200 metros sobre o nível mar. A altitude estafa, mas é possível enfrentá-la com pastilhas medicinais vendidas nas farmácias ou, como fazem os nativos, com folhas de coca comercializadas nos mercados. O antídoto natural contra o soroche (mal de altitude) pode ser consumido em infusões ou mascado. Não há o que temer. Para esclarecer dúvidas, desfazer mitos e espantar fantasmas a esse respeito, visite o Museo de la Coca, no bairro de San Blás, em Cusco.

Na trilha, a média de esforço a cada dia fica em torno de seis a oito horas. As noites são dedicadas a descansar, ouvir as histórias dos guias, trocar experiências com outros viajantes e observar as estrelas. O restante é pura conexão de corpo e mente com as montanhas. Belas, imponentes e por vezes amedrontadoras, elas são as grandes coadjuvantes da aventura. A protagonista, não cabe dúvida, é Machu Picchu, a grande recompensa que enche de lágrimas os olhos de quem a avista pela primeira vez desde Intipunku (Porta do Sol) no amanhecer do último dia de caminhada.

Salcantay, a alternativa mais confortável

Salcantay remete ao nevado cultuado pelos incas na região de Machu Picchu. Na cidadela uma inscrição aponta na direção do monte, um Apu na cosmovisão andina. Aos Apus, ou espíritos sagrados e força vital das montanhas, eram dedicadas oferendas e rendidas homenagens. A trilha que empresta seu nome pode durar cinco dias, ou mais, a depender de suas intenções. Dentre todas, é a que oferece mais conforto e uma experiência sem igual. A empresa Mountain Lodges of Peru organiza roteiros com hospedagem em lodges ao longo do caminho, e todas as vantagens que isso acarreta.

Boa parte da caminhada é feita a quase 4 mil metros de altitude, o que requer fôlego e bom preparo físico. Isso não impede os sedentários de cumprir o trajeto, mas há que estar atento às articulações: é importante ter joelhos saudáveis. O incessante sobe e desce exige bastante da musculatura e dos meniscos. Passo a passo, escute seu corpo. E respeite-o. Uma das lições mais belas de um trekking como esse está justamente no autoconhecimento. Não dá pra perder essa chance.

Do alto de seus 6.270 metros, o Salcantay acompanha os viajantes durante a maior parte do percurso. Quem vai no esquema lodge to lodge tem confortos inimagináveis para quem encara a trilha acampando. Água quente e cama branca, limpa e cheirosa toda noite fazem a diferença em qualquer situação. Para uns e outros, no entanto, o caminho não leva diretamente a Machu Picchu, como seria de se supor – ou desejar. A chegada ocorre em Águas Calientes, ou Machupicchu Pueblo, a cidadezinha aos pés da velha montanha encimada pela enigmática cidadela. De lá, na alvorada do dia seguinte, os viajantes finalmente têm acesso a uma das novas maravilhas do mundo.

Apesar de bem menos concorrida que a Trilha Inca, também é recomendável fazer reserva para a Salcantay. “Nosso roteiro vende mais que pão quente”, diz Valerie Barton, travel specialist da Mountain Lodges of Peru. O preço final, a propósito, de US$ 3 mil por pessoa na alta temporada, equipara-se ao de outros roteiros exclusivos pelo mundo. Ainda assim, costuma lotar. A concorrência dos europeus, especialmente de alemães, nórdicos e holandeses, aumenta a cada ano.

 

Trilha Inca, Peru

 

Thinkstock

 

 

Vistas deslumbrantes e subidas íngremes aguardam aqueles que desafiam os Andes Peruanos. Crédito: Thinkstock

Choquequirao e Vilcabamba, ainda mais desafios

Último bastião da resistência inca ante a invasão espanhola, Vilcabamba faz parte de um dos trekkings mais desafiadores da Cordilheira dos Andes. Limitada pelos profundos cânions do Apurímac e do Willcamayu, a cidade acolheu a linhagem real remanescente inca que impôs resistência durante anos aos ibéricos em meados do século 16.

Choquequirao, ou Berço de Ouro em quéchua, fica numa quebrada deslumbrante também protegida pelo rio Apurímac. Trata-se de uma clássica cidade inca, com setores sagrado, urbano e agrícola. Apenas 30% de sua área total se encontram escavados, mas uma parceria entre os governos do Peru e da França promete acelerar os trabalhos e, eles apostam, transformá-la numa nova Machu Picchu.

Conhecer de perto tanto Vilcabamba como Choquequirao exige tempo e ainda mais espírito de aventura do que, por exemplo, percorrer o Caminho de Salcantay ou mesmo a Trilha Inca. É possível fazê-lo em partes ou numa única tacada (de mestre, diga-se) em um roteiro de 13 a 15 dias que inclui também Machu Picchu.

Menos tempo, mas bem aproveitado

Se a ideia é travar contato com povoados isolados que preservam seu modo de vida ancestral, então não pense duas vezes em optar pelo trekking no Vale de Lares. Nele, os viajantes atravessam sítios arqueológicos incaicos e visitam vilarejos agrícolas, comunidades indígenas e famílias de tecelões durante os quatro dias de um trajeto que os leva para mais perto das nuvens, a 4.400 metros de altitude.

Mesmo quem dispõe de menos tempo também pode vivenciar a experiência de percorrer caminhos incaicos na região do Vale Sagrado, nas cercanias de Cusco. O roteiro que leva ao sítio arqueológico de Huchuy Qosqo tem a medida certa: os viajantes caminham de seis a oito horas para chegar às ruínas do palácio onde o soberano Viracocha se refugiou quando os chancas, arquirrivais dos incas, atacaram Cusco por volta de 1440. Coube a Cusi Yupanqui, um dos filhos de Viracocha, conter o ímpeto dos invasores. Após derrotar seus inimigos mais temidos, os incas puderam enfim iniciar o auge de sua expansão.

Cusi Yupanqui assumiu o poder, mudou seu nome para Pachacutec, o transformador do mundo, empreendeu várias campanhas exitosas e criou, de fato, um modelo estatal que viria a ser conhecido como Império incaico. Considerado o maior entre seus pares, Pachacutec também ordenou a construção de Machu Picchu, talvez a maior façanha arquitetônica de seu governo e destino final dos melhores trekkings na Cordilheira dos Andes.

 

Machu Picchu, Peru

A imagem clássica de quem chega ao fim da trilha inca. Crédito: Thinkstock

por Fábio Vendrame - Fonte: viajeaqui

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